sábado, 1 de agosto de 2026

Àkókò Kan Láti Ronú Jinlẹ̀ (momento de reflexão): O Animismo como Resposta à Crise da Modernidade.

 

Àtúnbí Àwọn Òrìṣà (Nẹ́tẹ́rù)ìbọgibọ̀pẹ̀ Gẹ́gẹ́ Bí Ìdáhùn Sí Àwọn Ìpèníjà Òde-Òní.

O Resgate dos Neteru: O Animismo como Resposta à Crise da Modernidade.

                                          Olùkọ́ Ọláńdésì Rọ́sà Fáríàsì - Professor Orlandes Rosa Farias

          A humanidade contemporânea enfrenta uma de suas maiores provações: a crise climática. Este cenário não é apenas o resultado de falhas técnicas ou econômicas, mas sim o sintoma de uma profunda desconexão espiritual e filosófica entre o homem moderno e o meio ambiente. Ao longo dos séculos, a sociedade ocidental estabeleceu uma barreira rígida entre o que considera "Cultura" e "Natureza", reduzindo o planeta a um mero depósito de recursos a serem explorados. Diante desse colapso iminente, olhar para o passado — especificamente para o Kemetismo e o culto aos Neteru — surge não como um retrocesso místico, mas como um farol de lucidez. O resgate dessa tradição egípcia, sob uma perspectiva essencialmente animista, oferece a filosofia necessária para reconstruirmos nossa relação com o cosmos.

          O cerne dessa mudança reside na compreensão de que o universo não é um objeto inanimado. O Kemetismo nos ensina a enxergar o sagrado em cada folha, vento ou gota de chuva, validando a premissa de que a matéria é dotada de vida. Essa visão ecoa milênios depois no hilozoísmo dos primeiros filósofos da natureza da Grécia Antiga, como Tales de Mileto e Anaxímenes. Quando Tales afirmava que "tudo está cheio de deuses", ele validava tardiamente o antigo reconhecimento kemético de que as divindades são as próprias leis e forças que regem o cosmos. A natureza, portanto, pulsa; ela não é um cenário estático, mas uma entidade viva e divina que exige respeito e reverência.

          Essa vitalidade universal nos conecta diretamente ao conceito de panpsiquismo e à ideia de uma "Alma do Mundo". Para os antigos egípcios, o meio ambiente era a manifestação direta da energia criadora, e a humanidade carregava em si a mesma centelha divina do cosmos. Séculos mais tarde, pensadores como Giordano Bruno e Baruch Spinoza — com o seu célebre conceito de Deus sive Natura (Deus ou a Natureza) — argumentariam de forma semelhante que Deus e o universo são a mesma substância. Se a força vital e o espírito permeiam toda a matéria existente, o ser humano deixa de ser um observador externo e passa a ser parte indissociável de um sistema vivo interconectado.

          Essa mudança de percepção ataca diretamente a raiz do problema apontado por antropólogos e filósofos contemporâneos, como Edward Tylor e Philippe Descola. Ao superarmos a desconexão moderna, entendemos que o homem não é o dono do planeta. Essa sabedoria se materializa perfeitamente no princípio egípcio da Ma'at, a lei do equilíbrio cósmico. A Ma'at nos ensina que a sustentação do mundo depende de uma cooperação contínua e ética entre a humanidade, as divindades e os elementos naturais. Essa busca por reciprocidade assemelha-se fortemente ao pensamento de lideranças indígenas modernas, como Ailton Krenak e Davi Kopenawa, que defendem uma relação de parentesco, e não de dominação, com a Terra. Se os elementos ao nosso redor — como o ar, a água e a terra — são seres vivos, nossa interação com eles deve ser pautada pela justiça e pela harmonia.

          Em suma, o Kemetismo e a ontologia animista oferecem muito mais do que um vislumbre histórico; eles entregam uma urgência ecológica e existencial. Transformar nossa visão de mundo significa abandonar a arrogância antropocêntrica que nos trouxe à beira do abismo ambiental. Reconhecer os Neteru nas forças da natureza é compreender que curar o planeta exige, fundamentalmente, curar a forma como nos enxergamos nele. O equilíbrio da Ma'at não é uma utopia do passado, mas a única saída viável para o futuro.

Wo àlàyé ọ̀rọ̀ (veja o glossário):
- Àtúnbí: renascimento, regeneração. 
- Àwọn: marcador de plural (os/as). 
- Nẹ́tẹ́rù: neteru, orixás, divindades (uma palavra de origem egípcia antiga/Kemética, Ntr ou Netjeru, frequentemente usada por movimentos intelectuais pan-africanistas e espiritualistas em sincretismo com o iorubá).
- Ìbọgibọ̀pẹ̀: espiritualidade tradicional baseada na natureza (literalmente, "o culto a árvores e palmeiras", termo historicamente usado de forma pejorativa por religiões abraâmicas para traduzir "paganismo" ou "animismo", mas ressignificado hoje como preservação e reverência ecológica). 
- Gẹ́gẹ́ Bí: assim como, na qualidade de, como.
- Ìdáhùn: resposta.
- Sí: para, em direção a.
- Ìpèníjà: desafio. 
- Òde-Òní: tempos modernos, atualidade ou contemporaneidade.