Olódùmarè (Nzambi) kì í ṣe Ọlọ́run Ìwọ̀òrùn: Àṣìṣe láti fojú wo ohun mímọ́ ilẹ̀ Áfíríkà nípasẹ̀ awò ẹ̀sìn àwọn Ábúráhámù.
Nzambi não é o Deus do Ocidente: O equívoco de julgar o sagrado africano pela lente abraâmica
Olùkọ́ Ọláńdésì Rọ́sà Fáríàsì
Se olharmos atentamente para a história das religiões, perceberemos que o colonialismo não se limitou a confiscar terras; ele também sequestrou conceitos. Durante séculos, a teologia ocidental tentou enquadrar as complexas espiritualidades africanas dentro de moldes eurocêntricos, frequentemente traduzindo a figura de Nzambi apenas como o "Deus" cristão ou judeu. No entanto, essa aproximação é um profundo equívoco conceitual. A cosmovisão que sustenta Nzambi na tradição espiritual africana diverge estruturalmente da concepção de Deus apresentada pelas escrituras judaico-cristãs. Enquanto o monoteísmo abraâmico se ergue sobre o pilar da fé dogmática e da revelação divina, os sistemas de pensamento africanos estruturam-se sobre o conhecimento empírico, vivencial e cósmico.
Para compreender essa distinção, é preciso despir-se do antropomorfismo ocidental. O Deus bíblico intervém na história humana, manifesta paixões — como ira, ciúme ou vingança — e, não raramente, escolhe povos e exige defesas apologéticas ou militares de seus fiéis. Em contrapartida, sob a ótica da filosofia africana, a Realidade Suprema, muitas vezes chamada de o Invisível, caracteriza-se pela não intervenção antropomórfica. Nzambi não possui descendência singular e não opera por meio de exclusivismos eclesiásticos. É precisamente a ausência de uma doutrina de "povo escolhido" que explica por que a história do continente africano é livre de guerras santas de expansão ou imposição espiritual. A espiritualidade, ali, é de acolhimento e equilíbrio, não de cruzada ou conversão forçada.
Além disso, a forma como o ser humano se conecta com o sagrado muda drasticamente de um sistema para o outro. No modelo abraâmico, o crente depende da palavra de profetas e de textos sagrados revelados. Na tradição africana, a noção de revelação profética direta é recusada. A cognição do Divino ocorre de forma ecológica e ética: pela observação rigorosa da natureza e pelo respeito irrestrito à alteridade. O sagrado não habita um "céu" transcendental e distante. A Divindade é a própria Consciência Primordial Absoluta, uma energia imanente que satura o universo e anima tudo o que vive. Para coroar essa distância ontológica, essa matriz afasta-se do patriarcalismo teológico ocidental ao conceber uma natureza dual e complementar, integrando perfeitamente os princípios masculino e feminino.
Em suma, reduzir Nzambi à categoria do Deus abraâmico é um reducionismo que empobrece a riqueza filosófica do pensamento africano. Trata-se de duas formas radicalmente distintas de se situar no cosmos: uma baseada no dogma e na transcendência vertical; a outra, na imanência, na observação da natureza e na complementaridade das forças. Reconhecer a autonomia e a profundidade ontológica de Nzambi é, portanto, um passo fundamental para descolonizar as nossas mentes e aceitar que o Divino pode ser experimentado muito além das fronteiras e das amarras do Ocidente.
Esquema Teórico: Nzambi vs. O Deus do Ocidente
1. O Problema Central (O Sequestro Conceitual)
- Colonialismo Teológico: Tentativa histórica de enquadrar as espiritualidades africanas nos moldes eurocêntricos.
- O Equívoco: Traduzir Nzambi simplesmente como o "Deus" judaico-cristão.
- Impacto: Reducionismo que empobrece a riqueza e a autonomia da filosofia africana.
2. Divergência Estrutural e de Fundamentação
- Modelo Abraâmico:
- Baseado na fé dogmática.
- Sustentado pela revelação divina (textos sagrados e profetas).
- Perspectiva de transcendência vertical (o sagrado está distante/no céu).
- Matriz Africana (Nzambi):
- Baseada no conhecimento empírico, vivencial e cósmico.
- Sustentada pela cognição ecológica e ética (observação da natureza e respeito à alteridade).
- Perspectiva de imanência (a divindade é a Consciência Primordial que satura o universo).
3. Comparação Direta de Atributos e Posturas
| Critério | Cosmovisão Abraâmica | Cosmovisão Africana (Nzambi) |
|---|
| Natureza da Divindade | Antropomórfica (manifesta sentimentos humanos como ira, ciúme ou vingança) | Não intervencionista, abstrata (chamada de "O Invisível") |
| Gênero Teológico | Patriarcalismo teológico | Natureza dual e complementar (integração do masculino e feminino) |
| Relação com Povos | Ideia de "povo escolhido"; exclusivismo eclesiástico | Sem exclusivismos ou descendência singular |
| Ação Histórica | Histórico de expansão, guerras santas, cruzadas e conversão forçada | Histórico livre de guerras santas; postura de acolhimento e equilíbrio |
4. Conclusão
- Diferença de Posicionamento: O Ocidente busca o dogma e a transcendência; a filosofia africana busca a imanência e a complementaridade das forças.
- Descolonização Mental: Reconhecer a profundidade e a autonomia de Nzambi é essencial para aceitar que a experiência do Divino vai muito além das fronteiras e das amarras ocidentais.
Wo àlàyé ọ̀rọ̀ (veja o glossário):
• Olódùmarè (Nzambi): Nzambi é o nome da divindade suprema na tradição Bantu (Congo/Angola).
• Kì í ṣe: não é (negação habitual/conceitual).
• Ọlọ́run Ìwọ̀òrùn: Deus do Ocidente, Deus ocidental.
• Àṣìṣe láti fojú wo...: "O erro de olhar para...". A expressão fojú wo (olhar com os olhos de) seguida por nípasẹ̀ awò (através das lentes/óculos) é uma excelente metáfora literária em iorubá para "analisar sob a perspectiva de".
• Ẹ̀sìn àwọn Ábúráhámù: religiões de Abraão (religiões abraâmicas, como o Cristianismo e o Islamismo).